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Perva Lee

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Meu nome é Perva. Perva Lee Jones.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Dia de cão


Cidade: São Paulo
Dia: domingo
Tempo: sol entre nuvens
Temperatura: 38 graus em seu corpo
Ela: Ana Elisa
Idade: entre 30 e 31 anos
Sorriso: amarelo
Desejos: muitos
Realizados: poucos
Motivo: era por isso que estava ali

Ana Elisa sentou-se em um banco na praça. Um cachorro arfou perto dela. Bonitinho até. Ela quis afagar o cão. Ele recuou. Ela olhou para o lado em busca do dono. Não viu ninguém.

O vira-lata chegou mais perto. Mostrou os dentes. Ana Elisa, por um segundo, pensou na arcada dentária, na sua própria. Lembrou que precisava ir ao dentista. Sorriu para o cão. Ele recuou.

Ana Elisa cruzou as pernas. Dane-se. Se o cão não queria nada com ela, ela também não iria querer nem amizade com ele. Olhou para o horizonte, fingiu que o cão não estava ali.

Ele latiu uma vez. Ela entendeu o chamado. Tentou não olhar para ele, mas seus olhares se cruzaram. Ele grunhiu. Ela também.

O cachorrinho se assustou com a reação dela. Ficou com o rabo entre as pernas. Ela se sentiu poderosa. Descruzou as pernas. Abriu um sorriso. Ele se aproximou dela.

Ela passou a mão em seus pelos macios. Ele deixou. Ela quis abraçar o cão. Ele recuou.

Ele latiu mais uma vez e ela quis entender. Olhou para onde ele olhava e viu uma pequena bola embaixo do banco. Pegou a bola. O cãozinho abanou o rabo.

De repente, o cão ficou em estado de atenção.
- Grandão! Grandão! Fique onde está!
Maurício, ofegante, chegou perto do seu cachorro:
- Bom menino, achou a bola!

Ana Elisa olhou para Maurício. Bonitinho até. Ela quis afagar o cara. Mas, ele recuou.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Eu não aceito flores

Ela estava anunciada. Ela, a morte. Fria, gélida.

Se pudesse voltar no tempo, não teria feito menos.

Se o tempo parasse, teria congelado alguns momentos.

E se o tempo é um santo remédio, nestes tempos ele se contradiz porque tem sido veneno.

Lento.

A morte é o fim.

O fim, a morte.

Não venha com flores.
Não venha com choro.
Não venha com pesares.

O cheiro dos crisântemos é sufocante.
O gosto do choro é salgado.
O peso do lamento é um fardo.

 Fernanda se levantou de sua cama, enxugou suas lágrimas, jogou o buquê no lixo e prometeu que nunca mais iria se lamentar pelo fim daquele noivado.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Reza braba

Salve Rainha, senhora das misericórdias. Olhe para mim e veja com seus próprios olhos como está o entorno dos meus: a cada dia, sinto uma ruga que se desenha sobre a minha pele.

Aproveite, Virgem Maria, estique seu olhar e confira: ela, a pele, está mais... sei lá... mole?

Mãe das alturas, daí de cima, consegue ver a qualidade da minha fibra capilar? Percebe alguns fios brancos espetados no meu couro cabeludo?

Desça aqui, minha Rainha, dê uma olhada. Isso aqui são varizes?

Ó doce sempre, ó clemente, ó piedosa, interceda por mim e solicite para que meus ossos não se fragilizem e para que o nervo pinçado nas costas cure o quanto antes. É urgente!

E, se possível, Nossa Senhora, permita que minha mente se desdobre e que eu me recupere em 8 horas, no máximo, de sono e possa exercer minhas atividades com presteza no dia seguinte.

Maria, se me permite tal intimidade, que o peso dos anos não seja contabilizado em quilos a mais. Isso é importante.

Pensando bem, queridona, tá tudo bem do jeito que tá.. Ainda consigo colocar a mão no joelho e dar uma abaixadinha. Eu só pediria, então, só para me dar um alento, só para não passar em branco este nosso encontro, um pouquinho de massagem... isso, minha flor, nos meus pés que é para eu ficar relaxada e continuar minha caminhada.

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domingo, 6 de novembro de 2011

A esposinha

Ela tinha lá seus 30 e poucos anos. Era uma mulher solteira, sorrateira, divina até segundo seus princípios. Queria mais do que poderia ter. Podia mais do que queria – mas isso ela não sabia – até então.

Apagou o cigarro no salto. Entrou na festa. Pediu um drink daqueles demorados. Dançou. Investiu. Foi até o chão. Foi. Foi. Foi.

Acordou atordoada. Oi? Quem? Ui!

- Minha esposinha...

- Oi?

Ela olhou para ele. Ele deu um sorriso.

Pensou: esposinha, esposinha... por que alguém me chamaria de esposinha?

Espreguiçou-se como se espreguiçasse todos os dias.

Levantou, ajeitou a calcinha e foi escovar os dentes pensando... esposinha?

Voltou para a cama.

- Esposinha?
- Você foi até o chão, não lembra?
- Fui?
- Foi.
- E foi bom?
- Opa! Barba, cabelo e bigode.
- Casa, comida e roupa lavada?

Ela sorriu. Seu nome era Amélia. Sabia que, sim, ela é que era mulher de verdade.

sábado, 13 de agosto de 2011

Fim do Túnel

Há luz.

Quando o mundo parece não conspirar a teu favor, acredite, há luz.

Quando teus olhos estão carregados pelo cansaço, pode crer, há luz.

Quando tuas palavras já não saem mais da garganta, confie, há luz.

Quando teu sorriso fica escondido na tua alma, saiba, há luz.

Olhe ao teu redor.

Olhe para você.

Há luz.

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terça-feira, 12 de julho de 2011

Quem é que cruzou tua vida, porra?!

Foi um momento mais ou menos eterno. Daqueles que a gente sabe que é importante e não consegue fazer nada além de respirar.

Suzana fez suas malas, ajeitou o cabelo, passou o perfume e pegou a bolsa. Foi direto ao aeroporto. Eram 4 horas da manhã, o vôo sairia em breve e Sobral a esperava com sua banda e seu calor de 32 graus.

Já a bordo do avião, Suzana se acomodou na poltrona 26B. Apertou os cintos, prestou atenção na aeromoça que parecia sinalizar os comandos em libras.

Olhou para o lado e reparou em um rapaz.

João estava distraidamente lendo um livro.

Suzana sentiu vontade de falar com ele.

- Bom este livro?

João virou seu rosto para Suzana, deu um sorriso e voltou sua atenção ao livro.

A viagem demoraria 4 horas, então Suzana resolveu insistir... ou investir, sabe-se lá.

- O que você vai fazer em Sobral?
- Trabalho.
- Hmmm.
- Lá faz calor!
- É.

Suzana deu um sorriso azedo. Virou-se para a janela e olhou-se no reflexo da janela.

Sentiu-se ridícula. Afinal, por que estava insistindo em uma conversa com um cara tão sem graça?

De repente...

- Senhores passageiros, eu sou o comandante Silva e solicito aos senhores que coloquem o cinto de segurança pois vamos enfrentar uma zona de turbulência.

A aeronave sacudiu, balançou como se estivesse passando por uma rua de paralelepípedos.

Então, como se houvesse uma perda de altura, como um elevador que desce muito rápido, durante aqueles breves segundos, parecia que Suzana flutuava.

Ela olhou pela janela, viu as asas e motores balançando durante a turbulência.

João olhou para Suzana.
Suzana olhou para João.
Suzana pensou na vida.
João pensou em Suzana.
João olhou para Suzana.

João sorriu. Agora, um sorriso cúmplice. Quase eterno.

Suzana desviou o olhar.
Preferiu curtir a turbulência.

Foi um momento mais ou menos eterno. Daqueles que a gente sabe que é importante e não consegue fazer nada além de respirar.


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terça-feira, 5 de julho de 2011

Gosto do gosto

Teus olhos são azuis. Gosto desta cor. Leve.

A tua pele é pêssego. Gosto desta fruta. Mordida.

O teu sorriso lembra o mar. Gosto das ondas. Vai e vem infinito.

A tua seriedade parece serena. Gosto deste sentido. Secreto.

O teu abraço acomoda o meu. Gosto deste enlace. Quente.

A tua boca desperta a minha. Gosto deste momento. Aldente.

Você. Gosto de você. Inteiro.



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